[Conte uma história #12] Dicas para aprender a esquecer

                Ando enrodilhada por uma dimensão soturna, em que uma personagem vive no esquecimento de si mesma e solidão. É que resolvi falar de uma velhice sem memória em meu terceiro romance. Não me perguntem como as escolhas acontecem, não saberia dizer com precisão. Simplesmente é assim: de repente, um tema, começa a girar em meu quadrante criativo e fica pulando amarelinha na imaginação. É como a criança que ronda pedindo atenção. Se eu não paro, escuto e começo a entender aquela cobrança, não vou conseguir mais nada na vida.

                Meus temas sempre me procuram antes que eu conscientemente queira falar sobre eles. Está acontecendo agora com a velhice. Mas vejam: não vou falar da passagem do tempo, que acrescentam rugas e peso ao nosso currículo, além, claro, da sabedoria essencial; vou falar das pessoas que “envelham” – não só “envelhecem”, mas “envelham”. Sei que este verbo não existe, acabei de criar para explicar literariamente e a meu modo o processo pelo qual passam as pessoas que se esquecem de quem elas são – a cabeça, que também é corpo, começa a definhar e, com ela, toda a memória. Quero falar dos velhos que se esquecem de se lembrar de quem são ou foram.

                Incrível como, quando a imaginação está propensa a criar uma realidade, outras ficções chamam a nossa atenção, são convocadas quase de modo magnético, como é o caso do romance Boa noite a todos, de Edney Silvestre. O livro falar de uma mulher, Maggie, que tem sua memória esfarelada. Muito interessante a forma como a narrativa se constrói na desconstrução do que ela mal se recorda ou, por outra, do que ela esquece e, então, como suplemento, inventa cores e formas e padrões que nunca existiram para preencher com algum sentido o vazio do esquecimento. Mas tudo falha, porque há uma segunda voz para lhe dizer a verdade: não, não foi nada disso. E, de repente, tudo escurece porque o esquecimento é uma tela escura: “As ruas de Londres e as ruas de Amsterdã se fundem no arremedo parisiense à volta dela, em lembranças sem cor e sem foco. Todos os carros são pretos. Os ônibus, todos os ônibus, mesmo os de dois andares, são pretos. As ruas são pretas”, diz o belíssimo texto de Edney.

                É um tema árido e complexo. Há que se tratar com muita destreza – o esquecimento é um terreno movediço; ao se entrar ali, pode-se temer o momento em que tudo falhará como em uma falta repentina de luz. Boa noite a todos é um exercício primoroso de montagem da desmemoria: forte, tocante e necessário.

                Gosto cada vez mais da literatura brasileira contemporânea e não entendendo quando dizem que não temos romances de peso. Sim, já ouvi muito isso! Discordo totalmente. Admiro a forma engenhosa como vário desses romances contemporâneos se enredam e se estruturam de maneira inusitada. É um aprendizado para quem escreve. Afinal, a leitura é uma espécie de oficina informal. Se a gente quer aprender a escrever, tem de ler em primeiro lugar, conhecer o que os autores do nosso tempo estão criando e escutá-los com atenção. A literatura ajuda na literatura.

                Estou agora às voltas com o aprendizado do esquecimento. É um caminho complexo, porque em nossa vida corrida de coelhos da Alice, o que mais precisamos aprender é a nos lembrar de tudo, não nos atrasar em compromissos, não perder as horas, não deixar a cabeça rolando – como em geral acontece – desparafusadamente. Para quem quer tocar no tema da desmemoria, o (árduo) caminho é inverso: desparafusar os nexos e tentar sobreviver ao percurso. Quem disse que escrever (e viver) é fácil?

Claudia Nina é jornalista e escritora, autora entre outrosm de Paisagem de Porcelana (Rocco)

 

Allison Diogo

Futuro Administrador e produtor de conteúdo para o Youtube e afins.

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