Lucky – A Despedida em Grande Estilo de Harry Dean Stanton

Não tem como falar de Lucky sem primeiramente falar de Harry Dean Stanton. Se você não o conhece, prepare-se para saber um pouco sobre esse grande ator que nos deixou em 15 de setembro de 2017 com seus 91 anos.

Nascido em 1926 em Irvine no Kentucky, começou sua atuação no teatro quando estudou na universidade também de Kentucky, em Lexington, onde foi convencido por seu próprio professor a deixar os estudos para se tornar ator, e assim ele foi para Pasadena Playhouse, grande teatro localizado na Califórnia. Stanton também serviu na marinha como cozinheiro na Segunda Guerra Mundial a bordo do navio USS LST-970 durante a batalha de Okinawa.

Ele não foi um ator de protagonizar muitos filmes, mas com seu visual sempre muito magro e suas atuações marcantes durante seus mais de 50 anos de carreira tanto no cinema quanto na TV, angariou uma legião de fãs nos papeis que interpretava, sendo por atuar em filmes como Alien: O Oitavo Passageiro (1979), Fuga de Nova York (1981), Christine – O Carro Assassino (1983), A Espera de Um Milagre (1999), Twin Peaks (1992 e 2017), e até mesmo em sua pequena aparição em Os Vingadores (2012). Dito tudo isso, agora estamos prontos para conhecer mais sobre Lucky, executado pelo estreante na direção: John Carroll Lynch.

Lynch, já conhecido como ator por vários trabalhos como Barber Martin em Gran Torino (2008), Tom Jessup em Ted 2 (2015), Lyndon B. Johnson em Jackie (2016), e também por suas participações na série American Horror Story (2014 – 2017), faz sua estreia como diretor nesse longa que nos traz Harry Dean Stanton em seu último e porque não gracioso papel de sua vida. Lynch dirige com preciosismo a jornada de Lucky (Stanton), que nos seus mais de 90 anos, fumante compulsivo e sem muitas crenças, se encontra no abismo de sua vida, quando a ficha cai que está realmente velho e indo de encontro a seu derradeiro fim. Apesar de ser um personagem fictício, Lucky carrega muitos elementos autobiográficos de Stanton, entre eles a questão de sua idade, seu serviço prestado na marinha e suas referências musicais.

Mas não pense que esse é um filme sobre velhice, doenças ou uma busca por redenção. Aqui, Lynch faz uma ode à vida, nos dando momentos de reflexão sobre a mortalidade,  espiritualidade e humanidade. Lucky ao perceber que sua longa caminhada se aproxima do fim, ele começa uma fase de autoexploração, em busca de algum significado do qual nem ele mesmo sabe muito bem do que se trata, mas que mesmo assim, é perceptível sua busca em descobrir.

É incrível como durante todo o longa, o expectador é levado para dentro daquele universo. Você se sente imerso na vida de Lucky e das pessoas que vivem naquela pequena cidade deserta do Arizona. Seja pelo carisma das mesmas, pelo background de cada personagem, por suas conexões e também pela vontade de descobrir junto ao protagonista o significado daquilo tudo. E tudo isso é muito bem executado principalmente pelo elenco e também pela trilha sonora que nos envolve.

Junto de Stanton e sua magnifica atuação, temos David Lynch (isso mesmo!), o cara responsável por Twin Peaks e tantas outras obras, contracenando com maestria no papel de Howard, em seu drama por ter deixado seu grande amigo fugir, um cágado chamado Presidente Roosevelt. Além de Lynch temos James Darren (Star Trek: Deep Space Nine – 1998/99) no papel do charmoso Paulie e sua amada Elaine interpretada por Beth Grant (Jackie – 2016), onde juntos de Lucky e do barman Vicent (Hugo Armstrong) proporcionam ótimos diálogos em um bar, assim como as poucas, mas sensacionais reflexões feitas entre Lucky e o dono da lanchonete, Joe (Barry Shabaka HenleyO Terminal / 2004), em meio a palavras cruzadas sendo feitas no balcão junto a um café com bastante creme e açúcar.

Na trilha sonora, a maior parte é composta por gaitas, sejam faixas tanto suaves quanto intensas, que nos guiam junto a Lucky diante dos momentos em que ele está passando. Acredito que não é simples coincidência dessa trilha, já que Stanton além de ator, também tinha seu talento para música e tocava muito bem sua gaita. Tanto que existe uma cena de encher os olhos em que é possível vê-lo tocando, além também de uma cena emocionante em que ele dá uma palhinha de sua voz. Mas a parte mais intensa do longa é quando toca “I See A Darkness” de Johnny Cash com o refrão que diz: “há esperança, de alguma maneira, de você poder me salvar dessas trevas?” Confesso que nesse momento foi difícil segurar a emoção.

Enfim, Lucky em um primeiro olhar parece um filme pesado e complicado, mas na verdade é uma comédia dramática baseada e inspirada na vida, histórias e conversas de Harry Dean Stanton com os amigos e roteiristas Logan Sparks e Drago Sumonja, que além de fazerem desse filme uma grande homenagem, é também sobre falar de pessoas comuns, de pequenos, mas valiosos gestos e sentimentos, e até mesmo do significado das palavras. Sendo assim, como diz Lucky: “ser solitário é diferente de viver na solidão”, e que no fim de tudo o que nos resta, é sorrir.